Em coluna publicada na Folha de S.Paulo, o jornalista e crítico Mauricio Stycer analisou a persistente disparidade de gênero nos espaços de criação da televisão brasileira, destacando o papel do livro Autoria e Gênero na Telenovela Brasileira (Editora PUC-Rio), escrito pela professora e pesquisadora Tatiana Siciliano (coordenadora do Narrativas & Consumo) e pelo pesquisador Francisco Malta.
A reportagem evidencia que, embora a TV aberta concentre 57% dos empregos do setor audiovisual no país, as mulheres ocupam apenas 37% dos postos de trabalho contra 63% dos homens — assimetria que se aprofunda nos cargos de liderança, criação e autoria principal. Diante de um histórico em que pouquíssimas mulheres figuram em publicações de memória sobre grandes novelistas (como a coletânea institucional Autores: História da Teledramaturgia, que em quase mil páginas registrou apenas Glória Perez e Maria Adelaide Amaral), a obra de Siciliano e Malta subverte a lógica tradicional ao destinar a maioria de seus longos depoimentos a autoras: Ana Maria Moretzsohn, Glória Perez, Lícia Manzo, Rosane Svartman e Solange Castro Neves.
O texto repercute depoimentos cruciais das criadoras sobre as barreiras da indústria: Lícia Manzo problematiza a aversão ao risco na TV aberta e no streaming, pontuando que tramas aclamadas como A Vida da Gente dificilmente seriam aprovadas pela busca corporativa por narrativas risk free; Ana Maria Moretzsohn aponta o etarismo presente nas plataformas digitais, onde executivos priorizam profissionais de sua própria faixa etária; Glória Perez recupera o pioneirismo de Ivani Ribeiro e Janete Clair na fixação de histórias de sentimentos na cultura brasileira; e Rosane Svartman defende a escuta da sociedade e das plateias como elemento vital para a renovação do formato.
A publicação é fruto direto da pesquisa “As trabalhadoras do audiovisual fluminense: trajetória de mulheres por trás das câmeras na TV e no streaming” (Processo SEI-260003/005775/2024), financiada pela FAPERJ no âmbito do edital Auxílio Básico à Pesquisa (APQ1). Ao documentar a autoria feminina sob a ótica dos métodos e rotinas criativas, o livro consolida uma intervenção historiográfica indispensável nos estudos sobre teledramaturgia no país.